Para ouvir e se inspirar

Este mês, três excelentes provas de como a música popular brasileira pode ser criativa, original, relevante e ousada. Basta fugirmos do óbvio e abrir a mente para o novo. Em tempos de transformações como o que estamos vivendo, trabalhos como esses nos ajudam a entender o mundo com mais sensibilidade.

Criolo – Ainda Há Tempo (versão redux – 2016)

Em 2006 o, até então, Criolo Doido lançava seu primeiro álbum com pouca experiência, mas muito a dizer. Dez anos depois o rapper, já consagrado, relança Ainda Há Tempo dando uma repaginada nas músicas trazendo para elas a maturidade conquistada nesse tempo. Das 22 músicas da versão original ficaram oito, começando por É o Teste, em que ele fala sobre perseverança diante das dificuldades da vida na periferia. “não se corromper, pra nós, já é vitória”. Chuva Ácida traz um discurso ecológico que se torna ainda mais atual com a inserção de uma fala sobre o desastre em Mariana (MG). Tô pra ver e até me emocionei exaltam o rap como manifestação de luta e resistência. Em Vasilhame, Criolo dá um dos melhores exemplos de como cresceu e amadureceu, retirando os versos ofensivos aos travestis e ainda mantendo a contundência da crítica ao alcoolismo. A faixa título resume bem a essência do álbum em versos como "As pessoas não estão más / Elas só estão perdidas". A Conclusão é que Ainda é tempo é um álbum que confirma o talento e inteligência de seu autor.

Ellen Oléria – Afrofuturista

Ao contrário do que muitos pensam a carreira de Ellen Olérea não se resumiu a sua participação vitoriosa no programa The Voice Brasil, nem ao seu terceiro álbum lançado logo em seguida tendo as músicas que interpretou no programa como destaque. Quatro anos depois, a cantora traz um álbum com muito mais personalidade, caucado em influências africanas e nas raízes da cultura brasileira com 16 músicas autorais. Em Afrofuturo ela sintetiza o conceito da obra fazendo uma mistura entre o tradicional e o moderno. Forró de Olinda e Samba da Zefa são as mais suingadas e trazem uma boa união de ritmos brasileiros. Há ainda espaço para o romantismo em Slow motion, Luz do amor e Eu posso ser, poema deidicado a sua esposa empresária Poliana Martins. Na Bela balada Areia, Ellen divide os vocais com a cantora e compositora cubana Yusa. Afrovitoriosa é um album que carrega a força e a riqueza da música brasileira e de Ellen Ólerea.

Rico Dalasam – Orgunga

Orgunga: Orgulho negro e gay, é assim que Rico Dalasam define seu primeiro álbum. Jefferson Ricardo Silva veio da periferia da região metropolitana de São Paulo com o desafio que tomou para si de ser porta voz do Queer rap e o primeiro rapper gay assumido. No EP Modo Diverso que lançou no ano passado ele já mostrava seu olhar diferenciado para a música, mas é em Orgunga que rico revela todo seu potencial. O Álbum traz a forte presença de sonoridades orientais que se misturam com influências do pop, do R&B e colaboração de vários produtores. ‘Esse close eu dei’ é seu primeiro single, um manifesto de aceitação e auto estima. Dalasam, Milili e Riquíssima, um remix do single de Modo Diverso também estão nessa temática. O rock Relógios tem uma veia mais radiofônica com um refrão marcante. Honestamene, Drama e Vambora se voltam mais para temas românticos mas sem abandonar as bandeiras que são a essência da obra. Rico Dalasam mostra, com esse trabalho, que veio para quebrar barreiras em um meio ainda muito machista como o rap, se valendo de um som criativo e cheio de frescor.